A minha parte preferida do dia é a hora de ir dormir. Porquê? Porque a casa fica em silêncio, porque me posso confortar nos cobertores e no meu boneco, porque posso pôr a leitura em dia, porque me espera uma das melhores sensações que é adormecer, porque a minha única responsabilidade é dormir descançada e porque posso pensar.
Acontece que este fim-de-semana dormi na minha minúscula cama com um ser de 6 anos que eu adoro. O problema, além da falta de espaço, foi eu ir buscar o meu boneco.
Diz a criatura:
" Não achas que já és grande para dormir com um boneco?" e riu-se.
Depois de ele adormecer fiquei a pensar na pergunta... De facto sou grande e de facto durmo com um boneco. Mas o meu boneco deixa que eu o abrace sem reclamar, nunca reclama se eu o deixo de lado ou se durmo em cima dele...
Bom mas o que me levou a pensar foi o facto de alguém já adulto (e que supostamente sabe as fases de desenvolvimento humano e o que é ou não esperado em cada idade) nunca se ter questionado sobre esta incapacidade de dormir "sozinha".
A que se deve este comportamento infantil? Que sentimentos me provoca esta maneira de dormir?
Talvez por se referir a mim própria nunca reflecti sobre isto.
Decidi reflectir essa noite e cheguei à eterna dúvida "porque é que fui para psicologia?".
Porque é que sempre quis salvar criancinhas e mesmo não o fazendo (como planeei que o fosse fazer) me sinto feliz e realizada?
Porque é que quando penso sobre mim nunca chego a nenhuma conclusão e acabo por adormecer?
Serei assim tão aborrecida ou tenho medo do que vou encontrar cá dentro e o sono é estratégia de evitamento ou pelo menos de distração?
Apenas sei que continuo a acreditar que existem dois eu. Uma que sabe a teoria psicológica e outra que vive alheada disso.
Enfim... Vidas!
Acho que o pequeno ser de 6 anos está já a crescer e querer viver no mundo dos adultos! Que crueldade que fazemos às nossas pessoas pequenas, ensinamos-lhe a funcionar num mundo quebrado e enviesado, e a única maneira de andar direito num mundo enviesado é andar... enviesado.
ResponderEliminarNão, não sou fatalista, a paternidade tem-me ensinado muito e provocado milhares de questões. Antigamente era fácil, vou educar para ser boa e altruista, até ao dia em que vi um menino de 4 anos empurrar a minha filha para fora de um cavalinho, vi a cara dela ao perceber que as regras que tinha aprendido não a protegiam, antes protegiam que fazia mal. Nesse dia prometi que tentaria dotar a minha filha de ferramentas que lhe dessem não paz, mas sim liberdade.
Eu acho que ainda somos todos crianças, e que todos precisamos de um boneco, de uma luz acesa, ou de uma mão para dormirmos.
Curiosamente já tinha decidido que iria dormir com a camisola de minha filha perto da minha almofada, porque me estava a maravilhar com a cascata de emoções e imagens que me assaltaram quando tentei ver se a camisola que tinha usado hoje deveria ir para lavar. No momento em que a aspirei, vi passeios nos jardins, colo, noites a cantar enquanto olhávamos as luzes dos carros, os primeiros passos, o brilho nos seus olhos...
E agora fiquei com saudades da minha fronha amarela de criança...